Quem não fica afoito com um brinquedo novo? A última versão do jogo Resident Evil, o celular de última geração, a roupa da moda, o carro do ano. Estes itens que tanto absorvemos do mercado para suprir o desejo originado da lógica de produção em que vivemos. Produtos agregados a fortes mensagens de marketing e subsidiados por uma cultura de consumo são despejados em nossas vidas todos os dias. Um novo que instiga, que fascina, que clama por nossa atenção, uma atenção que também desejamos a nós mesmos. Pois, ao senso comum cabe definir que ser bem-sucedido implica em consumir, ter posses, ou jogar com aparências.
Bem, esse é um blog sobre tecnologia. O que essa discussão sobre cultura e modo de produção tem a ver com os temas abordados aqui? Já explico. Por diversas vezes nós gerentes de TI, gerentes de projetos, arquitetos de software ou desenvolvedores somos compelidos a largar mão do conhecimento já acumulado em uma tecnologia a favor de novas coqueluches que o mercado nos apresenta. Ferramentas novas que realmente impressionam, frameworks que facilitariam nossas vidas quando começamos a desenvolver nossos sistemas. Porém, na maioria das vezes, abandonamos este legado de conhecimento para embrenhar em novos meios por razões mercadológicas e não pela real necessidade do cliente. “Necessidade do cliente”, guarde bem essas palavras, pois são os norteadores dos negócios.
Cada solução tecnológica deve partir de uma demanda de negócio; deve partir da possibilidade de atendimento dos requisitos do cliente. E andar na crista da onda pode implicar em produto instável, equipe imatura, reestruturação de procedimentos, necessidade de altos investimentos e principalmente, perda de credibilidade com cliente. Por esses e outros fatores, a adoção de novos formatos deve ser analisada com cautela, com alvo no benefício que pode se alcançar para satisfazer os novos clientes e os da carteira.
Comumente em listas, em salas de aula, em palestras, existem debates acirrados sobre supremacia entre plataformas tecnológicas, debates que se olharmos pela perspectiva do momento são até divertidos devido à argumentação. Mas, em uma visão ampla percebemos o grau de imaturidade de algumas pessoas, e pior, pessoas que multiplicam conhecimento. A discussão não toma âmbito apenas de plataforma, chega-se em nível de frameworks, a famosa “luta das letrinhas”. Alguns, mais exaltados, chegam a decretar a morte de frameworks como o Struts e o Hibernate, os quais seriam substituídos por JSF (Java Server Faces) e JPA (Java Persistence API). No entanto, esquecem que mesmo havendo inúmeros atrativos para adoção destas ferramentas, empresas que possuem mercado sólido, arquiteturas estáveis e produtos maduros não iriam jogar o investimento já realizado pelo ralo. Até porque para o cliente não importa se está usando a ferramenta de persistência X ou Y, o que verdadeiramente importa é terem seus requisitos de negócio atendidos, incluindo requisitos de confiabilidade.
Sendo assim, a idéia de que tecnologia de ponta é o melhor, nem sempre condiz com a realidade. A evolução tecnológica não é de maneira linear, onde uma etapa evolutiva sobrepõe a outra. Este desenvolvimento opera por uma lógica sistêmica, em rede. Onde o estágio em que nos encontramos oferece linhas co-existentes, as quais serão adotadas dependendo da demanda do mercado e das condições em que se encontram. Nem sempre o brinquedo novo é o que agrada mais.